xmlns:og='http://ogp.me/ns#' A dez quadras daqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

Visitando a Terra Santa


Já fazem 4 meses que voltei da Palestina e Israel, 4 meses sentindo uma saudades imensa de tanta coisa de lá. Agora que o Rafael está pelo EAPPI em Jericó, então, minha vontade de voltar é maior ainda.

Durante os 3 meses que estive no Oriente Médio vi e vivi tantas situações contrastantes, especialmente por estar circulando entre Israel, que é um país que se orgulha por suas semelhanças com alguns lugares europeus, e a Palestina, lugar onde se respira a cultura árabe. Situações como ser perguntado se você está armado para entrar em um shopping center em Tel Aviv a sentar e tomar um chá em uma tenda em meio ao Vale do Jordão. Visitei uma sinagoga na celebração do shabat e vi o exército israelense destruir uma mesquita.

Times de Yanoun e Jayyus em Burqin, Palestina, dentro de uma caverna construída para ser usada como igreja na época em que os cristãos eram perseguidos pelos Romanos.
Entre tudo isso (e mais um pouco) visitei lugares por conta própria, além daqueles que estavam dentro do programa do EAPPI.

Pretendo escrever um pouco sobre alguns lugares que eu fui. Alguns fazendo referências ao conflito, outros que fui somente para tentar descansar a cabeça de tantas situações chocantes que fazem parte do dia a dia dos palestinos.

Estes posts saíram da ideia de que a maioria das pessoas que vai para esses dois países não sabe exatamente o que está acontecendo, sabe pela televisão o que aconteceu em Gaza, mas não o que acontece diariamente na Cisjordânia. Pessoas que vão em grupos de turismo visitar a Terra Santa, que vão a Belém ou ao Rio Jordão e acreditam que isso tudo está dentro de Israel. E pra não restar dúvidas, sim, é tão possível pessoas atravessarem o mundo e não saberem onde estão que, pouco antes do Rafael ir pra lá, conversando com os pais de uns conhecidos descobrimos que eles estiveram lá, mas... O Rio Jordão fica em Israel! Nós não fomos pra Palestina. E depois de 20 anos de viagem feita eles descobriram que sim, estiveram na Palestina.

E até o próximo post!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

...mas diferente de todas as outras.

 Comecei a semana falando um pouco sobre semelhanças mas, agora, quero falar sobre diferenças. No Brasil eu trabalho como concursado em uma prefeitura gaúcha há 3 anos, de segunda a sexta, como fiscal de obras, fazendo vistorias para liberação de alvarás de funcionamento, monitorando obras em andamento, atendendo a denúncias de construção irregular entre outras atividades dessa ordem.

 Aqui, na Palestina, trabalho como voluntário em um programa humanitário internacional há 2 semanas e meia (e tenho mais 2 meses e meio pela frente), de segunda a segunda (mas com algumas folgas obrigatórias), provendo presença protetiva para comunidades vulneráveis, monitorando e reportando abusos aos Direitos Humanos e auxiliando palestinos e israelenses em seus esforços pela paz.

 Dito isto, segunda-feira meu grupo estava pronto para começar a semana com uma agenda bem planejada mas, como nem tudo são flores na vida, as coisas aconteceram de modo diferente e nossa primeira tarefa do dia foi atender a um incidente urgente: uma demolição de unidades residenciais em uma comunidade de beduínos não muito longe de Jericó. A cultura milenar dos beduínos faz parte do que é a Palestina e, por mais que eu esteja familiarizado com os problemas nesta terra há tempos (graças ao Fórum Social Mundial sediado em Porto Alegre há uns 10 anos atrás), acho que nunca estaria preparado o suficiente para o tipo de situação que estava prestes a encarar.

 Chegamos no local depois do acontecido, às 11hs (não tinhamos contatos locais, logo recebemos a informação tardiamente). Três amontoados de material retorcido deixavam claro o que acontecera. Algumas crianças apenas observavam com olhar meio perdido, outras corriam e brincavam sobre os escombros enquanto dois garotos, de pé, continuavam o que parecia ser sua lição de casa. Uma ong estava no local tomando notas e conversando com o representante da comunidade. Alguns homens estavam sentados em pedras, reunidos em silêncio, um clima denso de velório no ar...

 Em poucas palavras, o Mukhtar da comunidade nos explicou que, por volta das 9hs da manhã, o exército israelense apareceu (cerca de 25 a 30 soldados em jipes) escoltando duas escavadeiras e destruiram as casas de duas famílias e um abrigo para animais sem nenhum aviso prévio. O que é ilegal segundo as leis internacionais (vai contra a Quarta Convenção de Genebra) e, acredite se quiser, até contra as leis israelenses (que exigem que ordens de demolição sejam entregues antecipadamente, por mais injustas que elas sejam).
Foto por I. Tanner.
 Vivenciar essa situação esfacelou o meu dia; depois de passar cerca de uma hora naquela cena de filme, ouvindo o relato daquela gente e vendo os resultados dessa "ação militar" israelense (em território palestino), não pude mais funcionar propriamente. A noite, minha cabeça ainda estava tão cheia que, apesar do cansaço do dia, só consegui dormir perto do amanhecer. Hoje só consigo lembrar das palavras do nosso motorista, que ao me ver abalado na volta para o carro, depois do acontecido, disse: "Eu sei que é ruim, que é difícil. Mas esse é o nosso dia-a-dia. E pode ter certeza, em breve, tu te acostuma."

 E essa foi minha primeira segunda-feira de trabalho no Vale do Jordão, uma segunda como qualquer outra... Na Palestina.

Uma segunda-feira como outra qualquer...

O texto abaixo foi minha primeira publicação a respeito desta aventura na Palestina, postado em 3 de Novembro de 2014, às 8:03hs de segunda-feira, no Facebook. Daqui para frente pretendo compartilhar essa experiência que estou vivenciando através deste blog, onde a Carina (que esteve aqui uns meses atrás) também expôs o que ela viu e sentiu na sua passagem por esta terra.

 Acordei não faz muito, com o barulho dos carros passando e das crianças correndo e gritando aqui na frente do prédio. Está calor e daqui há pouco mais tenho que tomar banho, engolir o café da manhã e sair, um monte de coisas para fazer. Uma segunda-feira como outra qualquer, não fosse o fato de que estou em Jericho, Palestina, a cidade mais antiga do mundo, a 260 metros abaixo do nível do mar.
Fazem umas duas semanas que aportei por estas bandas da dita Terra Santa e só agora consegui escrever algo aqui, pois é tanta coisa ao mesmo tempo que eu mal consegui parar para botar as ideias no lugar.

 Pretendo falar muito (muito mesmo) sobre o que eu tenho visto e experienciado aqui mas neste primeiro momento, o que mais me chama a atenção e quero compartilhar é a similaridade. Todo mundo no Brasil (pelo menos uma grande maioria) acha, graças ao que a mídia nos vende, que aqui é algum tipo de outro mundo, um lugar exótico totalmente diferente da nossa sociedade, quando na verdade tem tanta coisa parecida com o Brasil que eu fico de queixo caído. A alegria das pessoas, a correria do dia-a-dia, a hospitalidade... Claro que existem muitas diferenças, é óbvio, mas para mim o mais surpreendente no momento são as semelhanças.

 Eu realmente não sabia o que esperar quando vim para cá mas acho que a hospitalidade e a naturalidade com que eles recebem as pessoas aqui é incrível. Tenho sempre aquela sensação comigo de cidade do interior (mesmo no centro fervilhante de Jericó) onde todo mundo se conhece e está disposto a trocar dois dedos de prosa e te oferecer um mate na varanda. Só que aqui ao invés de mate, é chá ou café.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Palestina #8 - Aquilo que postei no Facebook II

Yanoun - Postado em 05/06/14




Ontem dois carros do exército Israelense estiveram aqui em Yanoun. Foram até o poço artesiano, os soldados andaram pela volta das árvores e quando perguntados nos disseram que "estamos fazendo aqui o mesmo que vocês, vendo esse lugar lindo. É lindo, não é?".
Acontece que aqui, quando o exército chega há sempre uma suspeita, pois raramente seus serviços são a favor dos Palestinos. Em área C, como é o caso de Yanoun sempre existe o medo de que a visita seja para deixar uma ordem de demolição para obras sem permissão ou que não se encaixem nas restritas regras de legalidade de obras aqui (deixando claro que conseguir uma permissão de obra em área C é praticamente impossível, de 2009 até 2012 de 1640 somente 37 foram aprovadas). Em área C não são construções ilegais aquelas que foram construídas antes da ocupação ilegal, em 67, depois disso, qualquer obra pode receber uma ordem de demolição que pode ser contestada, mas que normalmente só compra tempo antes da demolição, não a evita. Reformas também podem receber ordem para parar e caso continuem a casa receberá uma ordem de demolição.
A ordem de demolição comumente é deixada pendurada em uma arvore, colocada debaixo de uma pedra, ou algo similar em vez de ser entregue ao dono da construção a ser demolida. O soldado tira uma foto para comprovar que a ordem está lá, e vai embora. Em muitos casos o vento leva a ordem, os animais comem, as pessoas só encontram o papel no último dia dos 14 possíveis para recorrer. Ou não encontra e sua casa, abrigo de animais, banheiros são demolidos sem saber por que.
Pelo menos ontem, aqui, nós pudemos ficar um pouco mais tranquilos: nenhum papel, nada pendurado, nada lá. Enquanto isso ficamos aqui nesse lugar realmente "lindo, não é?" cuidando e esperando que nada aconteça.




Mak-Hul - Postado em 14/06/14



Por algum motivo uma parte do meu coração ficou em Mak-Hul. Junto com a Nami e família dela. Não posso dizer que falei muito com eles, nem que fiquei muitas horas, mas foi o suficiente pra ver o tanto de amor que essa família tem.
Ano passado, enquanto o Rafael tava aqui, a vila inteira foi demolida, logo depois as tendas e inclusive o caminhão que trazia as tendas foram confiscados. Com o que sobrou eles reconstruíram casas e abrigo pros animais e seguiram - da forma que deu - em frente. Desde o começo desse ano 74 ovelhas morreram por falta de abrigo, comida e água. A plantação de trigo não cresceu, por falta d'água - o um palmo de altura de trigo vai ser cortado para alimentar as ovelhas por algum tempo.
Esse ano não teve chuva suficiente pro trigo crescer e eles também não tem água encanada - apesar da encanação passar debaixo da vila levando água para o campo militar a mais ou menos 300 metro dali. Eles compram água a 20 NIS/m³. Em um mês são, no mínimo 900NIS (por volta de R$ 540) só de água.
Eles também não tem eletricidade, apesar de os postes que levam luz até o campo militar ficar a 15m das casas. Eles tem painéis solares doados pela universidade Al-Najah, em Nablus com apoio de organizações internacionais.
Eles não tem abrigo suficiente pro animais e nem podem contruí-los, pois estão esperando julgamento do caso pra saber se há risco de serem demolidas as estruturas de novo. O caso deveria ser julgado essa semana, mas foi adiado.
Eles estão no Vale do Jordão, onde várias vilas estão sendo demolidas, onde o governo israelense já declarou a vontade de anexação da área.
Mas o que eles tem, sumood, ninguém tira. Eles tem força. E eles tem uma família incrível, daquelas crianças que estão ali rindo, brincando e te fazendo lembrar que o mundo ainda pode ser um lugar melhor. Eles tem uns aos outros.
Eles tem a força dos Palestinos, e insh'Allah, eles vão ter os seus direitos de volta.

sábado, 31 de maio de 2014

Palestina #7 - Aquilo que postei no Facebook

Esse post é uma compilação de algumas coisas que escrevi no Facebook. A ideia é colocar tudo aqui no blog pra ficar mais fácil pra quem quiser ler, já que meu FB é fechado, e pra eu conseguir me organizar também.
Ficou longo, mas..
Hope you enjoy it!

Handover - escrito em 07/04/14



A foto é de uma frutinha selvagem que encontramos hoje lá no Vale do Jordão enquanto a gente ia ver uma nascente que ainda está funcionando pra distribuir água pros palestinos, mas que daqui uns tempos, quando ficar mais calor vai diminuir (ou esperamos que não, que esse ano seja diferente) por que os colonos pegam essa água pra irrigar suas plantações (eles são colonos e tem água encanada, mas pegam a água da nascente). Isso tudo depois de ir em Mak-Hul para acompanhar a plantação de oliveiras em uma terra recuperada por palestinos. Uma terra que foi tomada pelo exército israelense, mas que estava sendo tomado por colonos para plantação (ao lado do mesmo terreno já existe uma plantação ilegal). Como sempre o exército estava lá, e em algum momento tentou fazer com que as pessoas não plantassem em toda terra. Nós ficamos lá mais ou menos 3h, e logo que fomos embora o exército confiscou os caminhões de água dizendo que estavam em área militar. Ninguém tem como prever, parecia calmo quando fomos embora, mas o fato de não ter uma presença internacional no local foi o suficiente pra acontecer algo irregular.

Acho que é isso, e bem, apesar de tudo que está acontecendo aqui, é um lugar maravilhoso, com um povo incrível. E vocês deviam vir aqui, fazer queijo com a vizinha também.


Qaryut - escrito em 19/04/14


Era pra ter chovido, mas não choveu.
Um acordo de paz deveria ser assinado, mas não foi.
A bomba de gás lacrimogênio não deveria ser lançada, mas foi.
Uma criança foi presa, mas não devia.
Árvores foram cortadas, mas deveriam dar frutos.
Terra foi roubada, e deveria ficar com o dono.
Um pastor foi agredido mas no dia anterior ajudou o agressor.
O exército atirou bombas de gás na escola em vez de garantir a segurança dos estudantes.
Era pra tudo ser multiplicado, mas foi queimado.
Era pra ser de todos, mas agora, é só de alguns.
Era pra ser lindo, mas agora é opressão.
Era pra ser uma oração, mas ontem choveu bombas de gás em Qaryut.



A foto é da primeira vez que fomos a Qaryut, aqui na frente a mesquita e lá atrás uma colônia ilegal israelense. Ontem fomos ao protesto como presenta protetiva aos moradores da cidade que tiveram as terras e a estrada confiscada pelo exército. O protesto era simples, fazer a oração do meio dia na terra confiscada e voltar para casa. Mas lá, antes mesmo de a gente chegar o exército israelense já estava no morro, impedindo o povo de descer até a estrada. Foi lindo, eles oraram e no final, em inglês, falaram pro exército que eles tinham acabado e estavam voltando pra suas casas, e que na próxima sexta lá estariam eles de novo, pra lembrar que a terra é deles. Nessa mesma hora um conhecido passou e disse "EAPPI, agora é melhor vocês subirem, pro bem de vocês". Nem mesmo cinco minutos depois, quando o povo já estava há uns 200 m do ponto da oração, o exército começou a lançar bombas de gás entre nós e pra cima do morro onde alguns esperavam e pra onde a gente deveria ir.
Sabe, bomba de gás dói, muita gente sabe disso. Bomba de gás quando não se tem motivo algum pra sentir a fumaça dói mais. Mas bomba de gás toda vez que você busca o seu direito dói mais que só na hora, dói dentro, dói na alma, na mente. E aqui, sempre é hora de bomba.

Bethlehem - escrito em 08/05/15


Essa é a paisagem da janela do meu hotel aqui em Belém. Do lado de cá os palestinos, do lado de lá os israelenses. Um pouco mais a direita um checkpoint por onde as pessoas que trabalham do outro lado do muro tem que passar todos os dias, passando por filas gradeadas, detectores de metal e mostrando sua permissão para a travessar.
Algumas vezes acontece de o soldado não deixar a pessoas cruzar sem nenhum motivo aparente. As vezes a pessoa descore que faz parte de uma lista negra. AS vezes ela pode ser irmã de quem está na lista negra. As vezes o soldado só não está afim de fazer rapidamente o trabalho.
A construção do muro não é ilegal. Todo país que quiser construir uma barreira na fronteira pode fazê-la. Mas aqui, nem sempre o muro é construído em cima da fronteira, mas sim dentro do território palestino, tirando o direito à terra de quem é o seu proprietário.
O checkpoint também não é ilegal, em todas as fronteiras existem guardas que conferem seus documentos. Mas aqui as condições do checkpoint e a forma com que as pessoas são tratadas, comumente humilhadas é que é o problema. E bem, caso a pessoa em questão seja israelense ela não precisa passar por tudo isso.
Bem...
Make hummus, not walls.

Tawayel novamente - escrito em 12/05/14


Duas semanas atrás Tawayel sofreu com demolições e três famílias ficaram sem onde morar. Há dois dias duas casas novas ficaram prontas, hoje de madrugada o exército apareceu lá de novo, e demoliu as novas casas, os banheiros e confiscou as tendas onde as famílias estavam morando.

A vila fica em área C, comandada por Israel, onde constantemente o exército confisca terras por motivos de segurança. Essas terras são fechadas para seus donos, e segundo a lei, se o dono não usar a terra por 3 anos ela se torna propriedade do estado. Normalmente essas terras são agregadas ou se tornam novas colônias ilegais israelenses dentro do território palestino. Outras vezes, em área C acontece como em Tawayel: casas são demolidas após serem avisadas por uma ordem para parar a construção. Comumente as casas já existiam muito tempo antes da ordem e estavam passando por alguma reforma ou manutenção. As vezes as casas simplesmente recebem ordens de demolição por estarem muito perto de terras ou estradas usadas por colonos israelenses. E a desculpa é sempre a mesma: segurança.

Sobre a 1ª demolição:
http://adezquadrasdaqui.blogspot.com/2014/04/palestina-4-demolindo-casas.html

Tawayel 3 - escrito em 18/05/14



Hoje, as 07:10h da manhã recebemos uma ligação de Tawayel, de novo a Administração Civil estava lá, com 3 Jeeps da polícia de fronteira. Quando chegamos lá vimos eles confiscando as 3 barracas onde as famílias estavam morando e uma betoneira. Do outro lado da vila uma ordem para parar a construção.
Segunda passada 2 casas (recém construídas) e 3 banheiros foram demolidos, e, 4 barracas e 1 lona usada pra cobertura na antiga mesquita foram confiscados.
Antes disso, no dia 29 de abril, 3 casas, 1 abrigo de animais, os banheiros e a mesquita.

Por que as pessoas não podem morar em suas próprias terras? Área C é a resposta.

Jiftlik Abu Al-Ajaj - escrito em 24/05/14

Foto: Sarah

Hoje nos fomos para Abu Al-Ajaj, no Vale do Jordao, onde, nessa quarta feira 36 estruturas foram demolidas. Por enquanto eles tem 10 barracas para morar, ddas pela Red Crescent, um banheiro portatil e a agua vem num caminhao pipa de uma vila ao lado. As ovelhas continuam no sol, a eletricidade vem de um "gato". E ha a possibilidade de o exercito voltar para demolir mais casas. A desculpa dessa vez foi a falta de permissao para construir.
A vila e vizinha de uma colonia ilegal israelense.

P.S. pós facebook: Essa barraca foi desmontada no dia seguinte por medo de o exército aparecer de novo.

Qalandya Checkpoint - escrito em 26/05/14

Foto: Ingar

Diariamente os palestinos que tem permissão para trabalhar em Israel passam por checkpoints como esse. Adultos com crianças, idosos e internacionais podem atravessar de ônibus, onde a permissão ou o passaporte são checados.
Todas as outras pessoas tem que descer do ônibus e entrar numa fila gradeada e esperar para passar em um dos guichês com detector de metal e mostrar a permissão para passar para o outro lado.
Em alguns checkpoints em um período de 2h chegam a passar até 8 mil pessoas, especialmente entre 4h e 6h da manhã.
Nesse dia passamos pelas 9h e tinham mais ou menos 10 pessoas na 1ª fila. Passamos a roleta e entramos na fila do guichê, depois de 3 pessoas passarem o guichê foi fechado e fomos para outro. Durante o tempo de espera vimos um homem que teve que voltar várias vezes e tirar mais coisas do bolso, sapatos, acessórios (assim como nos aeroportos), mas após alguns minutos ele foi autorizado a ir para o outro lado. Outro homem, que tinha a permissão na mão foi recusado, não se sabe por que. As vezes depende do humor dos soldados, as vezes podem dizer que é uma permissão falsa, as vezes a pessoa está na lista negra por ter participado de alguma manifestação, ser parente de algum preso, ou algum outro motivo. As outras pessoas passaram razoavelmente rápido.
No total, desde que entramos no checkpoint Qalandya, entre Ramallah e Jerusalém, foram 40min pra atravessar mais ou menos 30m. E posso dizer que não é uma experiencia muito boa, então só posso imaginar o que é fazer isso com mais 5mil pessoas.

Barreiras no Vale do Jordão - escrito em 27/05/14



Essa foto contém 4 imagens muito comuns aqui na Palestina.
- O aviso de cimento é um aviso de área de fogo, ou seja, área que o exército confiscou terras para treino.
- O aviso vermelho é: "esta estrada leva para área A, sob autoridades palestinas. A entrada para cidadãos israelenses é proibida, perigosa para sua vida e proibido pela lei israelense."
- A barreira de metal é um bloqueio para que os palestinos não usem a estrada.
- O monte de terra (nesse caso, terra nova, marrom mais escura) são bloqueios para que carros, tratores, e trabalhadores não passem para o outro lado da terra sem pedir autorização para o exército.

- Desde 67 o exército israelense começou a confiscar terras de fazendeiros no Vale do Jordão para usar para treinamento. Parte dessas terras ainda são usadas para esse fim, outras, após alguns anos se tornaram colonias ilegais israelenses e ainda algumas não são usadas e nem devolvidas aos seus donos. Enquanto essas terras vão para nas mãos dos colonos novas terras vão sendo confiscadas dos palestinos, para novos campos de treinamento. Até hoje alguns treinamentos são feitos próximos a residências, naturalmente causando desconforto e levando algumas pessoas a saírem de suas terras e por consequência o exército tomando posse da mesma.
- A Palestina está dividida em 3 tipos de áreas, A, B e C, sendo que A está sob autoridade palestina. Em área A, estão as grandes cidades; as vilas em área B, onde a autoridade se dá pela "colaboração" entre governos da Palestina e Israel; e a área C que está sobre total domínio das autoridades israelenses, e, onde está o Vale do Jordão.
- Estes portões em estradas são encontrados por todos os lados por aqui. Alguns costumam estar abertos, outros tem hora pra abrir, outros estão sempre fechados. Ou seja: o palestino que quiser ir para sua terra, tem que pegar uma segunda estrada que, comumente, é no mínimo o dobro mais longa que a bloqueada. Colonos israelenses podem passar pelos portões a qualquer momento.
- Os morros de terra são encontrados em estradas e campos onde o exército/governo israelense não quer que os palestinos passem. Nessa foto esse é o fim de um morro de mais de 3km impedindo que os fazendeiros cruzem a estrada principal para trabalhar do outro lado da via. Nesse caso além do morro ainda existe uma vala em algumas partes pra impedir os caminhões de passar por cima da terra.


Jalud - escrito em 31/05/14


Esse é Kemal, ele vive na Vila de Jalud que fica próxima as colônias ilegais israelenses Ahiya e Esh Kodesh. 
A casa que ele vive e as casas de seus irmãos há alguns meses tem que ser assim: com grades nas janelas. Não as grades decorativas que vemos aqui por todos os lados, mas uma tela de arame. O que aconteceu foi que há 7 meses atrás essas casa foram atacadas por colonos com os rostos cobertos e todos os vidros foram quebrados. Além disso, eles bateram com uma pedra na cabeça de uma das crianças da vila e até hoje ela tem a cicatriz.
Eles vivem no extremo da vila, a mais ou menos 300 m de Ahiya, quase no topo do morro, mas as crianças não podem brincar lá por que todos tem medo que os colonos achem que é provocação e ataquem novamente.
As grades foram doadas pela organização francesa Premiere Urgence.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Palestina #6 Day off em Belém, Bethlehem ou Beit Lehem

Depois de passar meus primeiros days off em Tel Aviv, em Israel, me sentindo em uma estranha bolha, onde os problemas não existem (mesmo lembrando deles o tempo todo), fui nessa semana pra Bethlehem aproveitar um quarto só pra mim, rsrsrs.

Foto: Sarah


Fomos até lá de taxi - aqui existem poucos ônibus, então existem vários táxis pra 7 lugares que já tem um preço fixo -, passando da Palestina para Jerusalém por um checkpoint de carro e de Jerusalém pra Bethlehem por um checkpoint a pé. O primeiro foi consideravelmente rápido, quase nenhum carro parado. O segundo estava vazio, pois chegamos em uma hora sem passagem de trabalhadores. Ao atravessar e andar algumas quadras, meu primeiro contato com o muro de separação. 8m de altura, câmeras e arames farpados. Ao chegar no hotel abro a janela e lá está ele, o muro, circundando uma casa, de um lado um campo de refugiados, do outro um lindo campo de oliveiras.

Foto: Sarah


Minha primeira caminhada ao anoitecer não me levou a nenhum ponto turístico (além do muro, é... pois sim...), mas já deu pra ter uma ideia de como é a cidade: ou tu sobe, ou tu desce. Lá pelas tantas a Sarah, que estava visitando o time de Bethlehem, me ligou e: "nós estamos indo pra uma aula grátis de dabca (dabke?), tás afim?" "YES!!" E lá fomos nós pro Alternative Information Center em Beit Sahour, junto com o Liam e a Cecilea ter nossa primeira aula de dança. Olha, o negócio cansa, mas é incrível!



No dia seguinte lá fui eu atrás da igreja da Natividade e do mercado da cidade antiga. A igreja está sendo reformada, tem muita coisa coberta, e o que não está coberto não parece lá muito bem conservado. Eu sei que era uma igreja, e não um museu, mas senti falta de saber as datas dos quadros e imagens. O que sei é que os poucos mosaicos que restam são do período Bizantino.



Fui no subsolo onde, dizem, está o lugar onde Jesus nasceu e o lugar da manjedoura. O primeiro marcado com uma estrela, o segundo algo que bem, não tenho ideia do que seja. Bem, não sei se é pelo fato de eu não acreditar que aquele é "oexatolocalondejesusnasceu", mas, é não vi muita coisa lá, não. Já o mercado é cheio de gente, lojas e bancas de frutas, doces e falafel, em algumas vielas uns museus (que estavam fechados por que fui na hora do almoço pro centro). O negócio é que andei até não poder mais!

Foto: Sarah


Na ultima manhã foi a vez de andar ao lado do muro e sentir o quanto ele demonstra a separação. Ao longo alguns depoimentos dados por mulheres palestinas sobre vários fatos que ocorreram por causa da ocupação ilegal da palestina. Graffitis dos mais variados, alguns Banksys. As câmeras no topo, e do outro lado um país aparentemente próspero, condomínios imponentes, estradas perfeitas, jardins verdes. É assustador ver o que está do outro lado do muro em comparação com o lado de cá, especialmente por saber que que um lado está bem em detrimento dos direitos dos palestinos.



Foto: Sarah
Mas pensando em tudo, é uma boa cidade pra ir e passear, bastante coisas pra turistas e também pra quem gosta de ir onde o povo vai, e não e lugares americanizados. Pessoas legais, uma doceria linda pra sentar e comer um knafeh e zilhões de lugares pra comprar lembrancinhas pra família inteira. E sim, dá vontade de voltar.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Palestina #5 Jayyus



Semana passada fui fazer uma visita a um outro time do EAPPI que está em Jayyus, mais a oeste, próximo a fronteira com Israel.

No dia que eu cheguei, de madrugada, o exército israelense fez uma incursão noturna na cidade: invadiram casas a procura de jovens acusados de atirar pedras em colonos israelenses. Pelas 4h da manhã 9 garotos foram vendados, tiveram as mãos amarradas com lacres plásticos e foram levados para algum lugar para serem questionados sobre as acusações. Algumas horas depois eles foram soltos. O time estava lá registrando tudo.

Cheguei no final da manhã e as coisas pareciam tranquilas naquele momento, saímos nas ruas pra descobrir quem eram os meninos e conversar com eles. Bem, quem nós encontramos não falava inglês, mas parecia bem, considerando o que ele tinha passado na madrugada.

Mais tarde fomos num encontro num centro cultural (Youth Club, na verdade) onde umas meninas de mais ou menos 16 anos se reúnem pra treinar seu inglês! Mohammed Assaf pra vocês ouvirem aí!



No dia seguinte, as 6:50h da manhã fomos até Zeita, uma vila passando Tulkarm para acompanhar um portão de agricultura. O que é um portão de agricultura (agricultural gate)? Basicamente é o seguinte: muitos colonos israelenses tomaram a terra dos palestinos para ter suas fazendas, mas logo ao lado ainda existem terras não ocupadas onde os palestinos ainda usam para agricultura. Acontece que essas terras, por questão de "segurança" foram gradeadas e a passagem é feita por somente alguns portões. Em Zeita, os portões abrem segunda, quarta e sexta das 7:00 as 7:15, das 12:00 as 12:15 e das 18:00 as 18:15. Caso alguém perca o tempo pra entrar, terá que esperar o próximo turno, caso alguém perca o tempo pra sair, irá dormir no campo. Quando nós chegamos lá, 10min antes as pessoas já estavam esperando, pra não ter chance de perder a hora.





Os portões foram abertos e as mulheres foram na frente. De três em três elas iam até o próximo portão e mostravam as permissões para trabalhar em suas terras do outro lado. Depois foram os homens. Por fim um homem com sua charrete e outro com um trator e algumas oliveiras e amendoeiras. Com o homem do trator as coisas demoraram mais e de repente vimos o homem voltando. Perguntamos se tinham negado a entrada, mas ele disse: "não posso entrar com as árvores por que elas não tem permissão". Pia, a outra EA que estava lá comigo ligou para uma hotline humanitária que costuma entrar em contato com os checkpoints caso haja algum problema, mas não havia tempo pro homem esperar: os 15 min de abertura do portão estavam passando e os soldados iam esperar por ele. Então ele deixou as árvores ao lado da estrada, antes do portão, e voltou somente com o trator, planejando tentar entrar por outro portão, outro dia, com as árvores.


Voltamos, e a tarde fomos a Tulkarm encontrar Ibrahim, que mora no campo de refugiados de Tulkarm, e andar por lá. E uau, se fosse num morro eu podia dizer que estávamos no Vidigal. Corredores apertados, o mesmo labirinto, mas sem as escadas. O campo existe desde 1948, quando oficialmente Israel se tornou independente e grande parte da terra da cidade se tornou parte de Israel, junto com pessoas de outras cidades e vilas que agora são território israelense. E depois fomos conhecer Mouna, parte de uma das duas únicas famílias cristãs da cidade.